João Campos entrou na disputa pelo Governo de Pernambuco carregando o sobrenome mais poderoso da política estadual nas últimas décadas. Filho de Eduardo Campos, morto no acidente aéreo de 2014 durante a campanha presidencial, e bisneto de Miguel Arraes, um dos maiores líderes da esquerda nordestina, o ex-prefeito do Recife representa a continuidade de uma linhagem que dominou o cenário pernambucano por gerações e que, historicamente, sempre transformou capital simbólico em capital eleitoral.
Desta vez, porém, o mecanismo parece falhar. A campanha do PSB insiste no peso da memória de Eduardo Campos, na tradição política da família e no apoio declarado do presidente Lula, mas os números mostram que essa combinação não tem produzido crescimento consistente. Enquanto João preserva seu patrimônio político, Raquel Lyra amplia o patrimônio eleitoral.
A pesquisa Quaest/Genial divulgada nesta terça-feira (28), com 900 entrevistas realizadas entre 22 e 26 de julho, confirma a mudança de eixo da disputa. No primeiro turno, Raquel aparece com 43%, contra 37% de João Campos, diferença de 6 pontos dentro da margem de erro de 3 pontos, mas suficiente para consolidar uma tendência que se repete nos levantamentos mais recentes: a governadora deixou a posição defensiva e passou a conduzir a corrida.
O dado mais relevante, no entanto, não é a vantagem atual, e sim a velocidade da inversão. Em abril, João liderava por 46% a 38%. Em poucos meses, perdeu a dianteira, viu a adversária crescer e passou a disputar uma eleição em terreno menos favorável do que o projetado no início do ano.
O segundo turno reforça a mesma leitura. Raquel alcança 45%, enquanto João registra 39%, revertendo completamente o cenário anterior e indicando que a mudança não é episódica, mas estrutural.
A origem dessa liderança está na avaliação do governo. A Quaest mediu 68% de aprovação da gestão estadual, índice próximo de 70% e raro para um governador que se aproxima da reta final do mandato. Mais importante: 57% dos eleitores afirmam que Raquel merece mais um mandato, contra 38% que dizem o contrário. Em política, aprovação elevada e desejo de continuidade costumam valer mais do que tradição familiar.
O contraste é inevitável. João Campos reúne atributos que, em Pernambuco, sempre tiveram enorme peso eleitoral: sobrenome, herança política, memória afetiva e apoio presidencial. Raquel Lyra apresenta outro ativo, menos simbólico e mais concreto: a percepção de desempenho administrativo. A pesquisa sugere que, neste momento, o eleitorado está respondendo mais à avaliação da gestão do que ao legado histórico.
Ainda falta campanha, debates e tempo de televisão. Mas a fotografia captada pela Quaest é clara: João Campos deixou de ser o favorito automático que muitos imaginavam, enquanto Raquel Lyra chega à fase decisiva da disputa acumulando aprovação alta, liderança nas intenções de voto e um cenário que mantém aberta a possibilidade de vitória já no primeiro turno, caso a tendência observada nas pesquisas se mantenha nas próximas semanas.







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