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| Mulheres na política e os desafios da liderança feminina em espaços de poder./Foto: Ilustração/IA/Bora PE |
Os ataques pessoais contra Raquel Lyra reacendem uma discussão maior sobre os desafios enfrentados por mulheres que escolhem ocupar espaços de poder
Entrar na política nunca foi um caminho simples para as mulheres.
Embora representem uma parcela expressiva da sociedade, elas ainda são minoria em muitos dos espaços de poder e decisão. E, quando chegam a esses lugares, frequentemente descobrem que o julgamento sobre suas escolhas pode ultrapassar a atuação pública e alcançar aquilo que existe de mais pessoal: a família, a história, a maternidade, a aparência e até as dores que carregam.
O episódio envolvendo a governadora e candidata à reeleição Raquel Lyra (PSD), neste fim de semana, coloca essa realidade novamente em evidência.
Cartazes e panfletos anônimos foram espalhados por diferentes pontos do Recife com ataques pessoais contra a governadora, incluindo referências à morte de seu marido, Fernando Lucena, em 2022.
Sem identificação de autoria, contratante ou grupo político responsável, os materiais provocaram reação de Raquel e levaram o caso às autoridades.
O episódio foi detalhado pelo Bora Pernambuco em reportagem anterior, que acompanhou a repercussão dos ataques, as manifestações dos candidatos e a decisão da Justiça Eleitoral. Leia a reportagem completa sobre o caso e a decisão do TRE-PE
Mas existe uma outra dimensão nessa história.
Uma dimensão que interessa especialmente às mulheres.
A mulher que existe por trás do cargo
Raquel Lyra pode, e deve, ser criticada como governadora.
Suas decisões podem ser questionadas. Seu governo pode ser avaliado. Suas propostas podem ser confrontadas. Como qualquer pessoa que disputa uma eleição, ela está sujeita ao julgamento dos eleitores.
Mas existe uma diferença entre enfrentar a candidata e atingir a mulher.
Raquel também é mãe. É viúva. Tem uma história familiar e uma trajetória pessoal que não começaram na política.
A morte de Fernando Lucena é parte de uma experiência de perda que pertence à sua vida. Quando essa dor é levada para uma disputa eleitoral como instrumento de ataque, o debate político muda de natureza.
E essa diferença precisa ser reconhecida.
Mulheres não precisam de proteção contra críticas. Precisam de respeito para que possam ser criticadas pelo que fazem, e não atacadas pelo que são.
O preço de ocupar espaços de poder
A presença feminina na política ainda exige uma dose extra de coragem.
Não porque mulheres sejam menos capazes de enfrentar o debate público, mas porque muitas ainda precisam atravessar barreiras que não deveriam existir.
Elas chegam aos cargos, mas frequentemente precisam provar novamente que merecem estar ali.
Precisam mostrar competência.
Precisam responder por suas escolhas.
Precisam administrar a exposição da família.
E, muitas vezes, precisam enfrentar uma cobrança que ultrapassa o exercício do mandato e alcança sua vida pessoal.
É justamente por isso que cada mulher que ocupa um espaço de poder também abre uma porta para outras.
Quando uma mulher assume uma prefeitura, um governo, um mandato parlamentar ou qualquer posição de liderança, ela não ocupa apenas uma cadeira. Ela ajuda a tornar aquele lugar possível para outras mulheres que virão depois.
Isso vale independentemente de partido, ideologia ou posição política.
Discordar também é parte da democracia
Defender a participação feminina não significa transformar mulheres em figuras intocáveis.
Muito pelo contrário.
Mulheres na política precisam estar submetidas ao mesmo escrutínio democrático dos homens. Devem ser cobradas, fiscalizadas e confrontadas quando suas decisões forem questionáveis.
O que precisa mudar é o limite.
A crítica deve alcançar a atuação pública.
O debate deve enfrentar ideias.
A eleição deve colocar projetos em confronto.
E a Justiça deve investigar aquilo que for necessário investigar.
No caso dos cartazes contra Raquel, a autoria do material ainda não está publicamente comprovada. O Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco determinou a retirada de publicações que associavam João Campos, o PSB e integrantes de seu grupo político à produção ou distribuição dos ataques.
A decisão reforça a necessidade de separar o que está comprovado daquilo que permanece sob investigação.
Portanto, não cabe transformar suspeitas em certezas.
Cabe cobrar investigação.
E cabe também fazer uma pergunta maior: que tipo de ambiente político estamos construindo para as mulheres que decidiram entrar na vida pública?
Uma luta que ainda está longe do fim
Talvez essa seja uma das principais reflexões que o episódio deixa.
As mulheres já provaram que podem liderar, governar, decidir e disputar eleições.
O desafio agora é garantir que possam fazer tudo isso sem que a política considere legítimo ultrapassar os limites da dignidade pessoal.
Raquel Lyra não precisa ser poupada por ser mulher.
Nenhuma mulher precisa.
Mas toda mulher que entra na política merece ter sua competência discutida antes de sua vida privada ser transformada em munição.
Porque cada ataque que ultrapassa a crítica política não atinge apenas uma candidata.
Ele também pode reforçar um ambiente que torna ainda mais difícil para outras mulheres decidirem ocupar espaços de poder.
E é justamente por isso que a presença feminina precisa continuar avançando.
Vale a pena ocupar espaços. Vale a pena disputar. Vale a pena liderar. Vale a pena continuar abrindo caminhos.
Porque a política também precisa aprender que mulheres não chegaram para pedir licença.
Chegaram para ocupar, participar, decidir e transformar.
“Bora Mulher: nenhuma mulher precisa ser poupada da crítica. Mas nenhuma mulher deve ser diminuída por ser mulher. O lugar delas na política também é lugar de poder, decisão e transformação.”





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