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| Família reunida durante o jantar enquanto todos usam o celular, representando os impactos das telas na convivência familiar.Foto: Ilustração/IA/Bora Notícia |
Entre mensagens, redes sociais, vídeos e trabalho, o aparelho virou presença constante na rotina, e especialistas chamam atenção para os impactos do uso excessivo na convivência, no sono e no cotidiano familiar
Família reunida, comida na mesa e uma cena cada vez mais comum: cada pessoa olhando para o próprio celular.
O aparelho que cabe na palma da mão passou a ocupar praticamente todos os espaços da rotina. Está presente no café da manhã, durante o almoço, no sofá, no trabalho, nas conversas e, para muita gente, também nos últimos minutos antes de dormir.
No Brasil, essa presença é praticamente universal.
Segundo o IBGE, 97,4% dos domicílios brasileiros tinham telefone celular em 2025. No mesmo período, a internet estava presente em 95% dos domicílios do país.
O celular deixou de ser apenas um telefone. Hoje, concentra trabalho, banco, informação, entretenimento, estudo, compras e relacionamento.
Mas, diante de tanta presença, surge uma pergunta:
quando o celular deixa de ser apenas uma ferramenta e começa a disputar espaço com a própria convivência?
Não é apenas uma questão de contar horas
Quando se fala em uso excessivo de telas, uma das primeiras perguntas costuma ser quantas horas por dia uma pessoa permanece diante do aparelho.
A questão, porém, é mais complexa.
A Fiocruz destaca que não é apenas o tempo de exposição que precisa ser observado. Também importa entender o que está sendo acessado, qual é a finalidade do uso e em que contexto ele acontece.
Uma pessoa pode passar várias horas conectada trabalhando ou estudando. Outra pode permanecer diante da tela em um ciclo automático de vídeos, notificações e redes sociais.
Por isso, o número de horas, sozinho, não explica toda a relação de uma pessoa com o celular.
Juntos no mesmo ambiente, separados pela tela
A cena é simples: pessoas no mesmo cômodo, mas cada uma concentrada em seu próprio aparelho.
Não necessariamente existe uma discussão ou qualquer conflito aparente. Muitas vezes, ninguém sequer percebe o comportamento.
O problema aparece quando o celular começa a ocupar justamente os momentos destinados à conversa, à refeição e à convivência.
O guia Crianças, Adolescentes e Telas, elaborado pelo Governo Federal, recomenda que as famílias estabeleçam momentos e ambientes livres de dispositivos digitais, incluindo as refeições. O documento também chama atenção para o comportamento dos próprios adultos.
Ou seja: não se trata apenas de estabelecer regras para crianças e adolescentes.
Os adultos também fazem parte dessa equação.
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Pais e responsáveis são referências importantes para crianças e adolescentes.
Se o celular interrompe constantemente uma conversa, uma refeição ou um momento familiar, estabelecer limites para os mais novos pode se tornar mais difícil.
As orientações oficiais recomendam que os responsáveis conversem com crianças e adolescentes sobre o uso da internet, conheçam os aplicativos utilizados e estabeleçam regras familiares de maneira dialogada.
A ideia não é transformar a casa em um ambiente sem tecnologia.
É evitar que a tecnologia ocupe automaticamente todos os espaços.
E quando o celular chega à cama?
Outro ponto de atenção é o sono.
A Fiocruz reúne evidências que relacionam o uso problemático de telas a alterações no sono, especialmente entre adolescentes. O uso noturno pode competir com o período destinado ao descanso e contribuir para uma rotina inadequada.
O guia do Governo Federal também recomenda preservar a rotina de sono e evitar que crianças e adolescentes mantenham dispositivos digitais no quarto durante a noite.
Isso não significa que qualquer pessoa que utilize o celular antes de dormir necessariamente terá problemas.
O alerta está principalmente no uso excessivo ou problemático e quando o aparelho começa a interferir no descanso e nas atividades do dia seguinte.
Quando o uso merece atenção?
Não existe uma quantidade única de horas que determine, sozinha, que alguém esteja fazendo uso problemático do celular.
É necessário observar os efeitos sobre a rotina.
Alterações no sono, isolamento social, sofrimento emocional, conflitos familiares e dificuldades para manter atividades cotidianas são alguns dos sinais que merecem atenção.
O Governo Federal recomenda buscar ajuda profissional quando houver sinais de uso problemático ou excessivo que estejam comprometendo o bem-estar.
Um teste simples para fazer em casa
Durante uma refeição, deixe os celulares longe da mesa.
Sem notificações.
Sem vídeos.
Sem mensagens.
Apenas conversa.
A proposta parece simples, mas pode revelar quanto o aparelho já está presente em um dos momentos mais básicos da convivência familiar.
Quanto tempo a família consegue ficar reunida sem olhar para uma tela?
Cinco mudanças que podem ajudar
Refeições sem celular: deixar os aparelhos longe da mesa pode recuperar um momento de conversa.
Menos notificações: nem toda mensagem precisa interromper imediatamente uma atividade.
Momentos offline: uma caminhada, um café ou uma conversa também podem acontecer sem telas.
Atenção ao horário de dormir: observar se o aparelho está prolongando o tempo acordado.
Exemplo dos adultos: regras familiares funcionam melhor quando também são respeitadas pelos pais e responsáveis.
O celular não é o vilão
Transformar a tecnologia em inimiga seria simplificar demais a questão.
O celular aproxima pessoas, facilita o acesso à informação, permite trabalhar, estudar, realizar serviços e manter contato com quem está longe.
A própria Fiocruz reconhece que o ambiente digital ocupa hoje um espaço central na comunicação e na sociabilidade.
O desafio não é abandonar o celular.
É não deixar que ele ocupe automaticamente todos os espaços da vida.
Análise do BORA
Talvez o problema não seja o celular estar presente demais.
Talvez seja a nossa atenção estar presente de menos.
A tecnologia já faz parte da vida e não precisa ser tratada como inimiga. Mas existe uma diferença entre utilizar o aparelho para uma finalidade e recorrer a ele automaticamente sempre que surge um momento de silêncio.
É aí que a discussão deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser humana.
Porque existe uma diferença entre estar na mesma casa e estar verdadeiramente junto.
Talvez o primeiro passo não seja abandonar o celular.
Seja simplesmente aprender a colocá-lo de lado quando alguém que importa está diante de nós.
E na sua casa: existe algum momento do dia em que todo mundo fica sem celular?
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