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| Tatiana Coelho de Sampaio, cientista da UFRJ responsável pela pesquisa da polilaminina. / Foto: Reprodução. |
Pesquisa iniciada nos anos 1990 teve proteção internacional abandonada entre 2015 e 2016 por falta de recursos; hoje, descoberta brasileira pode ser explorada livremente no exterior.
O Brasil perdeu a patente internacional da polilaminina, substância desenvolvida para auxiliar na regeneração de lesões na medula espinhal e que apresenta potencial para devolver movimentos a pacientes paraplégicos e tetraplégicos. A informação foi confirmada pela neurocientista Tatiana Coelho de Sampaio, responsável pela pesquisa conduzida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Segundo a pesquisadora, a proteção internacional foi perdida porque a universidade não conseguiu manter o pagamento das taxas obrigatórias no exterior, o que resultou na caducidade da patente fora do país.
Uma pesquisa de quase três décadas
Os estudos que deram origem à polilaminina começaram no final da década de 1990. O pedido de patente foi depositado em 2007, ainda em fase inicial de desenvolvimento. Após um longo trâmite, a patente nacional foi concedida apenas em 2025.
Como a legislação prevê validade de 20 anos a partir da data do depósito, a proteção brasileira seguirá vigente até 2027 — o que reduz consideravelmente o período de exclusividade comercial.
O que é a polilaminina
A polilaminina é uma versão polimerizada da laminina, proteína que compõe a matriz extracelular do organismo humano. Em laboratório, a substância atua como uma espécie de “estrutura guia”, estimulando a reconexão de fibras nervosas após lesões na medula espinhal.
Entre os benefícios observados em estudos experimentais estão:
Recuperação parcial de movimentos em pacientes com paraplegia;
Melhora da sensibilidade;
Estímulo à regeneração neural;
Potencial aplicação futura em outras doenças neurodegenerativas.
Os estudos seguem em fase experimental e ainda dependem de etapas regulatórias para ampliação do uso clínico.
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| Ilustração /IA/Bora PE |
De acordo com declarações da própria pesquisadora, a dificuldade para manter os registros internacionais ocorreu entre 2015 e 2016, período em que a UFRJ enfrentou severas restrições orçamentárias.
Segundo Tatiana Sampaio, a falta de recursos inviabilizou o pagamento das taxas internacionais de manutenção. Sem esses pagamentos, a patente perdeu automaticamente sua validade fora do Brasil, e, conforme as regras internacionais, não pode ser recuperada.
É importante destacar que o Brasil não “perdeu” a patente para um país específico. O que ocorreu foi a perda da exclusividade internacional, permitindo que empresas ou instituições estrangeiras utilizem a tecnologia em seus territórios sem obrigação de pagar royalties ao Brasil.
A cientista por trás da descoberta
Apaixonada por ciência desde a infância, Tatiana Coelho de Sampaio decidiu cursar Ciências Biológicas na própria UFRJ movida pela curiosidade de compreender os mecanismos invisíveis que sustentam a vida.
Desde a graduação, direcionou seu interesse para a biologia celular e os processos de regeneração do corpo humano. Essa inquietação científica a conduziu ao mestrado, ao doutorado e a anos de pesquisa dedicados à matriz extracelular e à regeneração neural.
Foram quase três décadas de estudo, experimentação e persistência. Em um país onde a ciência frequentemente enfrenta cortes orçamentários, manter um laboratório ativo exige mais do que conhecimento técnico , exige resistência. Ao longo dos anos, Tatiana acompanhou pessoalmente cada etapa do desenvolvimento da polilaminina, dos testes em bancada aos estudos aplicados.
Mais do que números e artigos científicos, ela viu histórias reais: pacientes, famílias e a esperança de recuperar movimentos antes considerados impossíveis. Para a pesquisadora, a ciência é feita por pessoas e para pessoas.
Sua trajetória simboliza o esforço silencioso de milhares de cientistas brasileiros que, mesmo diante de limitações estruturais, continuam produzindo inovação dentro das universidades públicas.
Ciência não pode depender do calendário político
O caso da polilaminina escancara um problema estrutural do Brasil: a ciência trabalha no tempo da pesquisa, não no tempo da política. Projetos científicos de alto impacto levam décadas para amadurecer, exigem continuidade e não podem ficar à mercê de oscilações orçamentárias a cada troca de governo.
Quando recursos são interrompidos, o prejuízo não é apenas financeiro — é estratégico. Perde-se competitividade internacional, soberania tecnológica e a oportunidade de transformar conhecimento em desenvolvimento econômico e social.
Investir em ciência e tecnologia não é gasto. É planejamento de futuro. É garantir que descobertas feitas dentro das universidades públicas brasileiras não se tornem oportunidades perdidas no cenário global.
A história da polilaminina deixa uma pergunta inevitável: o Brasil está preparado para tratar a inovação como política de Estado, ou continuará permitindo que avanços científicos fiquem vulneráveis às instabilidades do presente?
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