Enquanto profissionais eram homenageados no plenário, equipes seguiam de sobreaviso em UTIs e centros cirúrgicos para manter um dos serviços mais complexos do SUS funcionando sem interrupções
Homenagem revelou bastidores da alta complexidade
A homenagem realizada nesta quinta-feira (28), na Assembleia Legislativa de Pernambuco, ao Programa de Transplante Cardíaco do PROCAPE/UPE, acabou indo muito além de uma solenidade institucional. O reconhecimento público ao serviço expôs uma realidade silenciosa, marcada por pressão extrema, equipes de sobreaviso e uma corrida permanente contra o tempo para salvar vidas.
Enquanto o plenário da ALEPE reverenciava uma das maiores referências em cardiologia do Norte e Nordeste, parte significativa dos profissionais permanecia dentro do hospital, entre UTIs, centros cirúrgicos e plantões contínuos.
E talvez tenha sido justamente essa ausência silenciosa que deu ainda mais força à homenagem.
Assista:
PROCAPE se consolidou como referência no SUS
Segundo informações divulgadas pela própria Universidade de Pernambuco (UPE), o programa reúne mais de 160 profissionais e se consolidou como referência no transplante cardíaco pelo SUS, sendo responsável pelo primeiro transplante cardíaco 100% público realizado em Pernambuco, em 2022. A solenidade também destacou os avanços da unidade como referência em cardiologia de alta complexidade.
Durante a sessão, o deputado estadual Coronel Alberto Feitosa resumiu o impacto humano do programa ao afirmar que os profissionais “não devolvem apenas vidas, mas aniversários, abraços, sonhos e futuros”.
Durante o evento, um vídeo institucional foi exibido ao público presente, trazendo um forte impacto emocional e informativo. A produção resgatou momentos marcantes da trajetória do Procap, reforçando sua importância histórica e o compromisso da instituição com a saúde e o atendimento à população. As imagens e depoimentos apresentados ajudaram a contextualizar a dimensão do trabalho desenvolvido ao longo dos anos, conectando a plateia à essência do projeto e ao seu papel social. O vídeo pode ser assistido na íntegra neste link: Vídeo institucional exibido durante o evento.
Bastidores exigem equipes prontas a qualquer momento
Mas nos bastidores do transplante cardíaco, a realidade é muito mais intensa do que o público costuma enxergar.
A análise feita pelo publicitário e jornalista Nil Santos durante a homenagem chamou atenção justamente para esse ponto: um programa transplantador não funciona apenas com estrutura física ou reconhecimento institucional. Ele depende da existência permanente de equipes prontas para agir em questão de minutos.
O transplante cardíaco não espera.
Quando surge um órgão compatível, inicia-se uma verdadeira operação envolvendo captação, transporte, logística aérea, cirurgia, terapia intensiva e acompanhamento pós-operatório. Em muitos casos, o coração precisa atravessar cidades ou estados inteiros para chegar ao paciente dentro da chamada “janela segura” do transplante.
Especialistas da área explicam que o coração possui um dos menores tempos de preservação da medicina transplantadora, exigindo mobilização imediata das equipes.
Operações mobilizam dezenas de profissionais
Foi exatamente essa complexidade que marcou o primeiro transplante cardíaco realizado pelo PROCAPE em junho de 2022. A cirurgia mobilizou dezenas de profissionais e envolveu horas ininterruptas de trabalho entre discussão clínica, captação do órgão, preparação cirúrgica e transplante.
Em outra operação lembrada durante a homenagem, um coração captado no interior pernambucano precisou ser transportado com apoio aéreo para que chegasse a tempo ao receptor no Recife.
Esses episódios ajudam a explicar uma das maiores preocupações enfrentadas atualmente pelo setor: a necessidade urgente de fortalecimento das equipes de sobreaviso.
Ausência de regulamentação do sobreaviso preocupa equipes
Além da necessidade de fortalecimento das equipes contínuas, profissionais ligados à cirurgia cardíaca do PROCAPE alertam para outro problema considerado crítico dentro da saúde pública estadual: a falta de regulamentação específica para o regime de sobreaviso no estatuto dos servidores da saúde de Pernambuco.
Atualmente, equipes da cirurgia cardíaca permanecem em sistema permanente de sobreaviso para garantir que transplantes e procedimentos de alta complexidade possam acontecer a qualquer hora do dia ou da madrugada. No entanto, segundo profissionais da área, essa disponibilidade contínua ainda não possui previsão específica de remuneração na legislação estadual.
Na prática, médicos, anestesistas, perfusionistas, enfermeiros e profissionais especializados seguem de prontidão mesmo fora do ambiente hospitalar, podendo ser acionados a qualquer momento para procedimentos que não podem esperar.
A preocupação dentro do setor cresce justamente porque o transplante cardíaco depende diretamente da existência de equipes experientes e disponíveis em tempo integral. Quando surge um órgão compatível, não existe margem para atraso. Toda a mobilização precisa acontecer em minutos.
Profissionais ouvidos pela equipe avaliam que a atualização do estatuto dos servidores da saúde de Pernambuco se tornou uma necessidade urgente para evitar fragilidade operacional em serviços de alta complexidade. A ausência de regulamentação do sobreaviso é vista internamente como um risco para a manutenção contínua das equipes responsáveis pelos transplantes cardíacos.
Reconhecimento também virou alerta para a saúde pública
Ainda assim, o PROCAPE segue consolidando Pernambuco como referência nacional em cardiologia pública e transplantes pelo SUS. O reconhecimento da ALEPE acabou funcionando também como um alerta importante para a saúde pública: programas de alta complexidade não sobrevivem apenas de equipamentos ou homenagens.
Eles dependem, principalmente, de pessoas.
De profissionais que permanecem de sobreaviso enquanto a cidade dorme.
De equipes que deixam suas famílias para correr contra o relógio.
E de homens e mulheres que transformam plantões silenciosos em novas oportunidades de vida.
Enquanto Pernambuco dorme, existem equipes lutando contra o tempo para manter corações batendo , e a continuidade desse trabalho pode definir quem terá uma nova chance de viver amanhã.
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