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| Lula, Davi Alcolumbre e Hugo Motta em articulação no Congresso sobre escala 6x1 e taxa das blusinhas antes das eleições de 2026./ Foto: Ilustração/IA/Bora PE |
Duas pautas de forte apelo popular avançam no Congresso justamente na reta final antes das eleições. Para a oposição, o desafio agora é votar sem entregar ao adversário uma narrativa eleitoral pronta
Tem coisa em Brasília que parece apenas uma decisão de Congresso.
Até a gente olhar para o calendário.
E é justamente o calendário que coloca um ponto de interrogação sobre o almoço entre Lula, Davi Alcolumbre e Hugo Motta.
Na quarta-feira (26), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu no Palácio da Alvorada os presidentes da Câmara e do Senado. Da conversa saiu uma lista de prioridades para o Congresso, e nela estavam duas pautas com enorme potencial popular: o avanço do fim da escala 6x1 e a medida que permite zerar o imposto das compras internacionais de até US$ 50, a chamada “taxa das blusinhas”.
Até aqui, não há mistério.
É fato.
O que chama atenção é o momento.
A 6x1, que já havia sido aprovada pela Câmara, estava parada no Senado. Agora, depois da reaproximação política entre Lula e Alcolumbre, ganhou velocidade e já tem relatório favorável do senador Omar Aziz, ficando pronta para análise da Comissão de Constituição e Justiça em 2 de setembro.
Ao mesmo tempo, a MP 1.357/2026, que permite zerar o Imposto de Importação sobre remessas de até US$ 50, também avançou. A comissão mista que vai analisar a medida foi instalada nesta sexta-feira (28).
Duas pautas populares.
Duas matérias acelerando.
E uma eleição cada vez mais próxima.
É aqui que começa o jogo político.
A 6x1 não nasceu no almoço. Mas ganhou velocidade.
Antes de qualquer interpretação, é preciso colocar os fatos na mesa.
A proposta que reduz a jornada de trabalho e acaba com a escala 6x1 não foi criada agora. Ela passou pela Câmara em maio e chegou ao Senado.
O texto mantido pelo relator Omar Aziz prevê jornada de até 40 horas semanais, limite de oito horas diárias e dois dias de descanso, sem redução salarial. A mudança seria implantada de forma gradual.
Ou seja: Lula, Alcolumbre e Motta não inventaram a pauta.
Mas o acordo político mudou o ritmo de uma proposta que estava travada.
E isso importa.
Porque, quando uma matéria sai da gaveta justamente em um período eleitoral, ela deixa de ser apenas uma discussão legislativa.
Ela passa a ser também uma disputa de narrativa.
E é aí que a oposição entra no dilema
Imagine a campanha.
Um parlamentar da oposição vota contra a 6x1.
O discurso do adversário pode ser resumido em uma frase:
“Votou contra o trabalhador.”
Agora faça o caminho inverso.
O parlamentar vota a favor.
O governo poderá apresentar a aprovação como uma conquista de Lula e de sua agenda social.
É exatamente essa situação que setores da direita passaram a chamar de “armadilha eleitoral”.
Mas aqui é preciso fazer uma separação importante.
Não existe, até o momento, prova pública de que Lula, Alcolumbre e Motta tenham combinado a votação com o objetivo declarado de prejudicar eleitoralmente a direita.
Isso é interpretação.
O que existe é algo mais concreto:
uma pauta de forte apelo popular foi colocada entre as prioridades do Congresso e avançou rapidamente em plena reta eleitoral.
E esse fato já é suficiente para gerar uma discussão política.
Agora entra a “taxa das blusinhas”
Se a 6x1 coloca a oposição diante de um dilema, a segunda pauta mexe diretamente com o bolso.
A MP 1.357/2026 foi editada pelo governo federal em maio e alterou as regras para remessas internacionais. A medida permite ao governo reduzir a zero o Imposto de Importação para compras de até US$ 50.
A popular “taxa das blusinhas”, portanto, não nasceu no almoço de Lula com Motta e Alcolumbre.
Mas a decisão de acelerar sua tramitação aconteceu depois daquele encontro.
Hugo Motta anunciou que o Congresso deveria votar a medida na semana seguinte. Alcolumbre também colocou o assunto entre as prioridades.
E aqui existe uma diferença importante em relação à 6x1.
Para o eleitor, a mensagem é muito mais simples.
Não é preciso explicar jornada de trabalho.
Não é preciso discutir descanso semanal.
É só dizer:
“O imposto acabou.”
É uma mensagem curta.
Popular.
E que conversa diretamente com o bolso.
Em ano eleitoral, isso não é um detalhe.
A estratégia não precisa ser uma conspiração
Talvez esse seja o ponto mais importante de toda essa história.
Não é necessário provar uma reunião secreta para reconhecer que existe estratégia política.
Governos escolhem prioridades.
Presidentes da Câmara e do Senado decidem o que anda.
Relatores definem o ritmo.
E parlamentares sabem que cada votação pode virar argumento de campanha.
Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja:
“Existe uma conspiração contra a direita?”
Até agora, não há prova pública disso.
A pergunta é outra:
“Quem tem mais condições de transformar essas votações em capital político?”
E aí o cenário começa a ficar mais claro.
Se a 6x1 avançar, Lula poderá apresentar a medida como uma conquista para os trabalhadores.
Se a MP das compras internacionais for aprovada, o governo poderá dizer que ajudou a reduzir a carga sobre o consumidor.
Duas pautas.
Dois públicos.
Duas mensagens extremamente fáceis de comunicar.
Mas existe o outro lado da história
E aqui o debate precisa ser ampliado.
O fim da 6x1 não produz apenas aplausos.
Setores empresariais argumentam que a redução da jornada poderá elevar custos e afetar competitividade e produtividade. A Confederação Nacional da Indústria, por exemplo, estima impacto relevante sobre o custo do trabalho caso a proposta seja aprovada nos termos atuais.
Isso não significa que a proposta seja necessariamente ruim.
Também não significa que os argumentos empresariais sejam automaticamente superiores aos dos trabalhadores.
Significa apenas que existe um debate econômico legítimo.
E esse debate não pode desaparecer porque a pauta virou uma bandeira eleitoral.
O mesmo vale para as compras internacionais.
O consumidor quer pagar menos.
A indústria nacional teme perder competitividade.
O governo busca popularidade.
O Congresso precisa votar.
E o eleitor vai decidir o que considera mais importante.
O detalhe que transforma tudo: o calendário
Talvez seja aqui que esteja o ponto mais interessante da história.
Davi Alcolumbre afirmou que a semana de esforço concentrado seria a última semana de votações do Congresso antes das eleições.
Ou seja:
não estamos falando de uma pauta sendo colocada em votação em qualquer momento.
Estamos falando de duas medidas com forte apelo popular avançando justamente quando o calendário político aperta.
A PEC da 6x1 já está pronta para ser analisada pela CCJ.
A comissão da MP das “blusinhas” já foi instalada.
E Lula, em evento público neste sábado (29), voltou a defender a aprovação do fim da 6x1 e afirmou esperar que a proposta avance na próxima semana.
Agora a discussão deixou de ser apenas:
“Vai votar?”
A pergunta passou a ser:
“Quem vai levar o crédito?”
O jogo está montado
É aqui que a leitura de setores da direita ganha força.
A tese de que existe uma “armadilha eleitoral” não está comprovada como fato.
Mas o cenário que alimenta essa interpretação existe.
Lula tem interesse político na aprovação.
Alcolumbre controla o ritmo do Senado.
Motta controla a pauta da Câmara.
As duas propostas têm forte apelo popular.
E o calendário eleitoral está pressionando o Congresso.
Isso não prova uma conspiração.
Mas mostra que a política e a eleição estão caminhando lado a lado dentro do Congresso.
E a oposição terá de jogar esse jogo.
O problema não é apenas votar. É explicar o voto.
Essa talvez seja a parte mais difícil.
Se votar contra a 6x1, a oposição terá de explicar por que considera os impactos econômicos e trabalhistas mais importantes do que a redução da jornada.
Se votar a favor, terá de explicar como pretende enfrentar os custos para empresas e empregos.
Nas compras internacionais, a mesma coisa.
Se defender o fim do imposto, terá de responder às críticas da indústria nacional.
Se defender a manutenção da cobrança, terá de explicar ao consumidor por que ele deveria continuar pagando.
Não existe voto sem consequência.
E, em 2026, cada consequência poderá virar um vídeo de campanha.
No fim, o eleitor é quem decide
A discussão sobre a 6x1 é legítima.
A discussão sobre impostos também.
O problema começa quando qualquer uma delas é reduzida a uma disputa de slogans.
“Contra o trabalhador.”
“Contra o consumidor.”
“A favor do governo.”
“A favor da direita.”
A política brasileira tem uma enorme capacidade de transformar debates complexos em frases de poucos segundos.
E é justamente por isso que o que está acontecendo no Congresso merece ser acompanhado de perto.
Não porque esteja comprovada uma conspiração.
Mas porque existe uma articulação política real, pautas populares avançando e uma eleição no horizonte.
O tabuleiro está montado.
Agora, a oposição terá de decidir como jogar.
E o governo, como sempre acontece em ano eleitoral, tentará ser o primeiro a contar ao eleitor a história de quem ganhou a partida.





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