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Patrícia em um campo de flores, em um momento de serenidade e esperança, retratada para a reportagem especial Bora./ Foto:Arquivo/Patrícia

A cada passo, Patrícia descobriu que seguir em frente não significava deixar a saudade para trás, mas aprender a caminhar com ela.

Há saudades que pesam. Outras, com o tempo, aprendem a caminhar ao nosso lado. Não porque a dor desapareça, mas porque o amor encontra novas formas de permanecer. Foi assim que Patrícia reencontrou o sentido de seguir em frente.

Há sete anos, Patrícia perdeu a filha, Mariana, em decorrência do suicídio. A dor mudou sua vida para sempre. Nada voltou a ser como antes.

Mas, em meio ao sofrimento, ela descobriu que continuar vivendo não significava esquecer. Significava aprender, um dia de cada vez, a caminhar ao lado da saudade.

Hoje, ao compartilhar sua história pela primeira vez de forma tão profunda, Patrícia não busca reviver a tragédia. Seu propósito é acolher outras famílias que enfrentam o luto, combater o preconceito que ainda cerca a saúde mental e mostrar que pedir ajuda pode transformar vidas.

“Quando tudo aconteceu, senti uma necessidade enorme de conversar com alguma mãe que também tivesse perdido um filho. Eu precisava acreditar que alguém pudesse sobreviver a uma dor como aquela.”

Foi dessa busca por compreensão que nasceu a decisão de falar.

Hoje, Patrícia sabe que sua história pode alcançar outras mães, pais e famílias que enfrentam a mesma dor. Mais do que compartilhar lembranças, ela deseja oferecer acolhimento, mostrar que ninguém precisa enfrentar o luto sozinho e reforçar uma mensagem que considera essencial: falar sobre saúde mental, com responsabilidade e humanidade, pode salvar vidas.




A vida nunca voltou a ser a mesma

Patrícia descreve sua reconstrução como uma escolha feita diariamente.

Levantar da cama.

Escovar os dentes.

Sair para trabalhar.

Voltar a sorrir.

Cada gesto simples passou a exigir uma força que antes parecia invisível.

“É uma luta diária. A cada passo existe um pequeno sacrifício.”

Ela conta que foi amparada por uma rede de apoio formada por familiares, amigos e profissionais de saúde mental. Esse acolhimento foi fundamental para que encontrasse forças para seguir em frente.

Ainda assim, faz questão de esclarecer que o luto não desaparece.

“O luto pela perda de um filho não passa. Ele se transforma e passa a fazer parte de quem somos.”

Com o tempo, Patrícia aprendeu que existem dias mais leves e outros extremamente difíceis. Datas comemorativas, aniversários e lembranças importantes continuam despertando emoções profundas.

“Às vezes eu simplesmente paro. Permito-me chorar tudo o que preciso.

 Mas também aprendi que não posso permanecer nesse lugar por muito tempo. Pela minha outra filha. E por ela.

”Foi na caminhada e, depois, nas corridas de rua que Patrícia encontrou uma forma de reorganizar a rotina, fortalecer o corpo e, aos poucos, devolver movimento à própria vida. Cada medalha conquistada não representa o fim da saudade, mas a decisão diária de continuar.



O peso invisível da culpa

Entre todos os sentimentos que surgiram após a perda da filha, um se tornou especialmente devastador: a culpa.

“Você se torna sua maior acusadora.”

As perguntas se repetem constantemente:

"Será que eu fiz tudo o que podia?"

"Onde foi que eu errei?"

"E se eu tivesse percebido antes?"

Segundo Patrícia, esses pensamentos não mudam o passado, mas aprofundam ainda mais a dor. Por isso, ela destaca a importância do acompanhamento psicológico durante o processo do luto.



Quando o preconceito machuca ainda mais

Além da ausência da filha, Patrícia conheceu outra realidade difícil: o preconceito que ainda cerca o tema do suicídio.

Ela relata que muitas famílias convivem com julgamentos e comentários que aumentam o sofrimento de quem já está devastado.

“Quem perde um filho por suicídio não precisa de julgamentos. Precisa de escuta, compreensão e amor.”

É justamente esse silêncio que ela espera ajudar a romper ao contar sua história.sobre saúde mental e da dificuldade que a sociedade ainda tem de acolher a dor do outro sem procurar culpados.



Quem ampara também sofre

Ao lado de Patrícia esteve o esposo Ronald. Embora não seja o pai biológico de Mariana, ele viveu intensamente todo o processo de reconstrução da família.

Enquanto tentava apoiar a esposa, também enfrentava a própria dor.

“Eu era uma das únicas pessoas que não poderia cair.”

Durante esse período, buscou forças na espiritualidade, nos estudos, na rotina e nos pequenos gestos do cotidiano. Ao olhar para trás, resume sua principal aprendizagem em uma frase simples:

“Às vezes as pessoas não querem falar. Querem apenas um abraço.”

Seu relato mostra que o luto não atinge apenas quem perdeu diretamente. Toda a família também precisa ser acolhida.



O olhar da psicóloga

Márcia Coelho
Psicóloga Clínica – CRP 02/30904
Atendimento online e presencial no Espaço Florescer, em Jardim Paulista Baixo.

Para a psicóloga Márcia Coelho, ainda existe um mito que precisa ser desconstruído: o de que falar sobre suicídio incentivaria novas ocorrências.

Segundo ela, quando o tema é tratado com responsabilidade, informação e acolhimento, o efeito é justamente o contrário: amplia-se a possibilidade de escuta, acolhimento e prevenção.

“A informação nos ajuda a acolher de forma responsável as pessoas que estejam passando por sofrimento emocional.”

Márcia explica que mudanças bruscas de comportamento, isolamento, perda do interesse pela vida, alterações importantes no sono e frases de desesperança podem ser sinais de alerta.

Ela também destaca que nem sempre quem sofre consegue demonstrar claramente o que está sentindo. Algumas pessoas escondem a dor atrás de um sorriso. Por isso, observar mudanças de comportamento pode ser tão importante quanto ouvir palavras.

Outro ponto ressaltado pela psicóloga é que o luto não está relacionado apenas à morte. Separações, perdas de emprego, rompimentos familiares e projetos interrompidos também podem provocar intenso sofrimento emocional.

Nessas situações, o acolhimento faz toda a diferença. Segundo ela, uma das maiores demonstrações de cuidado é oferecer uma escuta sem julgamentos.

Frases como:

"Já passou muito tempo..."

"Você precisa reagir."

"A vida segue."

Mesmo ditas com boa intenção, podem aumentar a dor de quem sofre. A orientação é outra:

“Não cobre. Simplesmente acolha e escute. Seja um ombro amigo.”

Márcia também reforça que o apoio da família é fundamental, mas não substitui o acompanhamento profissional. Sempre que o sofrimento emocional se torna intenso, buscar ajuda de um psicólogo e, quando necessário, de um psiquiatra, pode ser decisivo para a recuperação.



Transformar a dor em acolhimento

Hoje, Patrícia acredita que falar sobre saúde mental é uma forma de cuidar de outras vidas. Ela faz questão de combater alguns preconceitos que ainda cercam o tema.

Depressão não é frescura. Não é falta de Deus. Não é fraqueza. Depressão é uma doença. E doenças podem matar.”

Ao final da entrevista, deixa uma mensagem para outras mães:

“Talvez a maior verdade que eu precise dizer seja esta: não foi nossa culpa.”

E conclui com uma frase que resume toda a essência desta reportagem:

“Falar sobre saúde mental não incentiva o suicídio. Falar salva vidas.”



A mulher que escolheu continuar

Patrícia sabe que a saudade nunca desaparecerá. Nem deseja isso. A saudade é parte do amor que continua existindo.

Hoje, ela trabalha, sorri, chora, abraça a família e segue vivendo. Não porque esqueceu. Mas porque aprendeu que continuar vivendo também é uma forma de honrar a filha que ama.

E talvez seja justamente essa a maior lição de sua história.

Há dores que nunca deixam de existir.

Mas existe amor suficiente para continuar caminhando.




Onde buscar ajuda

Se você ou alguém próximo enfrenta sofrimento emocional, procure apoio. Conversar com familiares, amigos e profissionais de saúde pode fazer toda a diferença.

Em momentos de crise, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece acolhimento gratuito e sigiloso pelo telefone 188 e por atendimento online.

Pedir ajuda é um ato de coragem. E pode salvar vidas.

Patrícia continua caminhando. Não porque a saudade tenha diminuído, mas porque aprendeu que é possível seguir em frente sem deixar de amar. A medalha que hoje carrega no peito não representa uma vitória sobre a dor. Representa a coragem de continuar, um passo de cada vez.

Patrícia não venceu a saudade. Ninguém vence. Mas aprendeu que é possível continuar caminhando com ela. E talvez seja justamente aí que a esperança começa: quando o amor deixa de ser apenas lembrança e passa a iluminar os passos de quem permanece.

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