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Foto: Júlio Gomes/LeiaJá

Em ato de campanha no Recife, presidente relacionou a dependência dos clubes das apostas à baixa adesão ao modelo de Sociedade Anônima do Futebol; horas depois, governo publicou MP que proíbe as bets no país


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou, no mesmo discurso, dois temas que hoje mexem diretamente com as finanças do futebol brasileiro: as apostas esportivas, conhecidas como bets, e o modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF).

A declaração aconteceu na sexta-feira (25), durante ato de campanha no Recife, ao lado do candidato ao Governo de Pernambuco, João Campos. Ao criticar a dependência dos clubes em relação ao dinheiro das apostas, Lula afirmou que as equipes deveriam encontrar outras formas de financiamento.

“Os times não têm direito de querer sobreviver às custas do povo pobre que torce para o time [...]. Nós aprovamos a lei para que os times virem empresas e ninguém virou empresa, porque eles querem mamar nas bets. Vão ter que arrumar outra forma de ganhar dinheiro, porque as bets vão acabar”, declarou o presidente.

A fala ganhou ainda mais peso porque, no mesmo dia, o governo federal publicou a Medida Provisória nº 1.394/2026, que proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa no país. A medida passou a valer imediatamente, mas ainda precisa ser analisada pelo Congresso Nacional para se transformar definitivamente em lei.

Lula coloca SAF e bets na mesma discussão

Criada pela Lei nº 14.193/2021, a Sociedade Anônima do Futebol estabeleceu um modelo empresarial específico para clubes de futebol, com regras próprias de governança, financiamento, tratamento de dívidas e organização econômica.

A legislação, porém, não obriga todos os clubes brasileiros a se transformarem em SAF. Foi justamente nesse ponto que a declaração de Lula chamou atenção.

Na avaliação apresentada pelo presidente, os clubes deveriam ter buscado o modelo empresarial como alternativa para reduzir a dependência das receitas provenientes das apostas. A fala ocorreu em meio à reação dos clubes contra as medidas anunciadas pelo governo federal.

O tamanho do dinheiro das bets no futebol

O impacto financeiro da decisão é significativo. Levantamento publicado pelo UOL mostra que 14 dos 20 clubes da Série A de 2026 possuem patrocínio máster ligado a casas de apostas. Somados, esses contratos representam cerca de R$ 910 milhões.

Entre os maiores valores estão Flamengo, com R$ 220 milhões fixos por ano, Corinthians, com R$ 150 milhões, e Palmeiras, com R$ 100 milhões. A dependência não se limita aos patrocínios de camisa. As empresas de apostas também estão presentes em placas, propriedades comerciais, transmissões e outros espaços ligados ao futebol brasileiro.

Segundo levantamento baseado nos balanços financeiros de 2025, os patrocínios de bets representaram 7,9% das receitas dos clubes da Série A.

Ou seja: para os clubes, não se trata de uma receita pequena ou periférica.

Clubes já demonstravam preocupação

A reação dos clubes ao possível fim das bets começou antes da publicação da medida provisória. Em setembro, entidades e clubes manifestaram preocupação com os efeitos de uma eventual proibição. Segundo o UOL, empresas de apostas chegaram a avisar equipes e entidades esportivas que poderiam rever contratos de patrocínio diante de novas restrições ao setor.

Também houve articulação dos clubes em defesa da manutenção das receitas provenientes das apostas.

O cenário ajuda a explicar por que a declaração de Lula provocou uma reação ainda maior no futebol: o presidente não apenas defendeu o fim das bets, mas associou diretamente a dependência desse dinheiro à escolha dos clubes por modelos tradicionais de gestão.

O que muda com a medida provisória?

A MP nº 1.394/2026 determina o fim da exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no Brasil. A medida produz efeitos desde sua publicação, mas depende da tramitação no Congresso Nacional. Caso não seja aprovada dentro do prazo constitucional, poderá perder a validade.

Para os clubes, o principal impacto imediato está na perda de contratos comerciais ligados às empresas de apostas.

O levantamento do UOL aponta que os 14 clubes da Série A que possuem patrocínio máster de bets concentram aproximadamente R$ 910 milhões nesses acordos. E a SAF entra onde nessa história?

É justamente aqui que a declaração presidencial abre uma discussão maior.

A SAF foi criada como uma alternativa para profissionalizar a administração dos clubes, permitir novas formas de investimento e organizar passivos e receitas. Mas a transformação de um clube em SAF não é automática nem obrigatória.

Ao dizer que os clubes não aderiram ao modelo porque preferiram “mamar nas bets”, Lula apresentou uma interpretação política sobre a escolha financeira das equipes.

O problema é que a realidade é mais complexa: clubes possuem diferentes estruturas societárias, níveis de endividamento, modelos administrativos e fontes de receita. Portanto, não é possível afirmar que a ausência de transformação em SAF tenha ocorrido exclusivamente por causa do dinheiro das apostas.

Uma coincidência que chama atenção

O ponto mais sensível da discussão está na sequência dos acontecimentos. Durante um ato de campanha no Recife, Lula criticou os clubes, relacionou a dependência das bets à ausência de adesão ao modelo empresarial e afirmou que as apostas “vão acabar”.

Horas depois, o governo federal publicou a medida provisória que determina o fim das bets.

Não há, até o momento, elemento documental que permita afirmar que a medida tenha sido adotada para obrigar os clubes a aderirem à SAF ou como retaliação contra as equipes. Mas a sequência dos fatos permite uma pergunta legítima.

O fim das bets representa apenas uma política pública voltada à restrição das apostas e aos seus efeitos econômicos e sociais ou também funciona, na prática, como um recado para que o futebol brasileiro encontre, ou adote, um novo modelo de financiamento?

Essa resposta ainda não está dada.

O que está documentado é que Lula colocou os dois assuntos na mesma fala e que, no mesmo dia, o governo publicou a medida provisória que atinge diretamente uma das principais fontes comerciais dos clubes brasileiros.


E agora os clubes terão de encontrar uma nova fonte de receita para preencher esse espaço.


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